• Drrrride

Eu odiava a Janis Joplin




Passei três anos da minha adolescência estudando canto lírico. Aos 16, ao entrar na minha primeira banda (e cair no poço sem fundo do rock’n roll), conheci a voz de Janis Joplin. Eu a odiava. Aqueles berros, a voz rasgada, aquele descontrole; caos e a total oposição à limpeza e “organização” do canto lírico. Relutei meses até que, enfim, topei tirar Piece of my Heart. Tirei, ensaiamos, tocamos - e foi lindo. Catártico. Me rendi - e minha vida nunca mais foi a mesma depois desse episódio. Tudo o que eu sabia sobre canto desmoronava diante dos meus olhos - e dos meus ouvidos.


Por isso, Cheap Thrills: uma escolha emocional para analisar um disco que me conecta com uma parte muito importante da minha vida e da minha relação com o rock’n roll.

Além de importante para mim, é um disco relevante para a história do Rock: considerado o 338º melhor álbum de todos os tempos na lista dos 500 maiores álbuns da revista Rolling Stone, é cultuado como uma das maiores gravações dos anos 60 (teve seu lançamento em 1968), e possui a emblemática capa com ilustrações coloridas em quadrinhos, feita por Robert Crumb, que é tida como a 9ª capa mais bonita de todos os tempos, eleita também pela revista Rolling Stone. Nesta análise, opto por focar nos aspectos visuais da capa, por ser minha área de domínio enquanto designer gráfica.


Originalmente sob o nome Sex, Dope and Cheap Thrills, o disco teve boa parte da proposta original censurada pela gravadora: o nome cortado para Cheap Thrills, e a capa, antes uma foto dos integrantes da banda nus em cima de uma cama, em seu lugar recebeu a arte de Crumb, reconhecido como um dos fundadores do movimento underground dos quadrinhos americanos e ícone da contracultura, de quem Janis Joplin era declaradamente fã.


“Eu apenas fiz isso como um trabalho comercial, de ‘aluguel’”, diz Crumb, que estava construindo carreira como um dos cartunistas originais da Zap Comix. Ele desenhou esta peça como a contracapa, mas a banda e a gravadora decidiram usá-la na frente, por acharem-na genial - e bem melhor que os nudes da banda.


Como é sabido, Janis tinha métodos pouco ortodoxos de trabalhar, por isso deu ao ilustrador apenas uma noite para criação da peça - que foi regada a muito LSD. Daí as figuras em cenas psicodélicas e cores vibrantes, como a ilustração atribuída à canção Piece of my Heart, onde se vê um cara salivando, na intenção de devorar um coração como se fosse um bife... “Janis costumava aparecer durante a noite, fumar maconha, olhar os desenhos e falar sobre eles”, lembra Crumb. “Ela era legal.”

Curiosidade: Para este projeto, a Columbia CBS iria pagar a Crumb a quantia de 600 dólares, mas não se sabe se ele recebeu ou sequer quis este dinheiro, pois a gravadora o tratou com desrespeito ao solicitar certas “refações” ou alterações na arte com as quais ele não concordava. Ele também não recebeu nem um centavo relativo às vendas milionárias, pois não tinha os direitos autorais da peça. O projeto original, entregue à Columbia, nunca foi devolvido a Crumb ou à banda, e foi dado como perdido por décadas. Reapareceu magicamente pouco antes do ano 2000, num leilão, onde foi vendido por 25 mil dólares a um colecionador desconhecido.



OBS.: Um detalhe da capa sempre me deixou intrigada: o selo de aprovação do motoclube Hell’s Angels no canto inferior direito. Investigando, descobri que Janis possuía simpatia pelo grupo e amizade com seus membros. Na época, existia uma relação entre os hippies e os Angels, cujo caminho foi aberto pelo escritor Ken Kesey e liderado pelos membros da Big Brother, uma vez que os motociclistas eram uma importante conexão com o transporte de drogas, especialmente maconha e anfetamina. No documentário Little Girl Blue, sobre a vida de Joplin, é possível ver membros do Hell’s Angels acomodados na plateia do show da Big Brother and the Holding Company no Monterey Pop Festival, em 1967.



Apesar de gostar muito dele, percebo o projeto gráfico deste disco como “no meio do caminho”. No produto final ficam evidentes as discordâncias e mudanças de planos, uma vez que nenhuma parte da capa se conecta com a outra.


A arte de Crumb fica isolada na frente, sem nenhum elemento que se conecte com ela nas outras faces; há uma foto produzida de Janis em alto contraste na contracapa, que também não dialoga com a foto do interior, onde se vê a banda em cima do palco, na tentativa de vender a ideia de que o disco foi gravado ao vivo quando, na verdade, apenas uma faixa foi gravada desse modo. O restante das músicas, que tem efeitos falsos de reação da plateia, dá mais ainda a cara de “meio do caminho” a este álbum pois segundo relatos, não transmite a verdadeira essência e energia de suas performances ao vivo.


Referências


BERG, Amy; Janis - Little Girl Blue; 2015. (Documentário)

ECHOLS, Alice; Shaky Ground: The Sixties and Its Aftershocks; 2002. (Livro)

MACDONALD, Bruno; Rock connections; 2010. (Livro)


Sites pesquisados


Revista Rolling Stone

Revista Rolling Stone (2)

Big Brother & The Holding Company

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